Ah, esse coração de pedra…

coracao

Na arte, como na vida, a sabedoria é algo que está muitas vezes distante da intelectualidade, e na maioria das vezes próxima da alma. Temos a tendência de construir nosso conceito sobre “sábios” a partir de uma intelectualidade elitista que não aceita a cultura produzida pela alma do humano. Alimentamos-nos de um néscio preconceito quanto à sabedoria popular.

Bem, acabamos nos limitando… Limitando nosso olhar e nossa identidade; nossa sabedoria. Existem pessoas que acham que sabem muito e sempre querem dar a última palavra, e sempre ter a razão. De fato, quando estamos usando de sabedoria não só temos razão como também percebemos a razão do outro… Recordo-me das palavras de um conterrâneo, Dom Helder Câmara, que dizia: “Até um relógio parado tem razão pelo menos duas vezes ao dia”…

O problema é saber identificar de quais são os Ecos em nossa alma… Na mitologia grega, Eco era uma bela ninfa que amava os bosques e tudo que era belo nos campos. Ela era a favorita da deusa Diana e sempre acompanhava a deusa em seus feitos. Mas Eco tinha um problema: Falava demais; e em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra.

Um dia, na tentativa de encobrir uma “diversão” do marido da deusa Juno com outras ninfas, Eco conseguiu entreter a deusa conversando “sabiamente” até as amigas fugirem sem que ela notasse. Percebendo-se enganada, Juno condenou Eco com as seguintes palavras: “Só conservarás o uso desta língua com aquilo que me iludiste, para assim fazer uma coisa de que gostas tanto: Responder. Continuarás, portanto, a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar”.

Entristecida por não conseguir dialogar com ninguém, pois sempre repetia o que ouvia, Eco passou a viver nas cavernas onde definhou, e seus ossos se transformaram em rochedos, nada mais restando além de sua voz. Assim sendo, ela continua a responder a quem quer que a chame com o velho hábito de repetir a última palavra…

Sempre seremos a voz daquilo que está marcado nas cavernas de nossa alma, nos bosques de nosso coração. Por isso, temos que identificar aquilo que é bom em nós, e aquilo que vem dos “ecos” para produzirmos a “terceira coisa”; dialogicamente.

Enquanto estivermos querendo dar a última palavra e ter sempre a razão, poderemos estar cometendo o mesmo erro de Eco, repetindo aquilo que ouvimos sem sermos justos, sem dar chance ao novo, ao todo, e a mais nada…

Se a verdade fosse apenas essa, tudo seria mais fácil, a questão é que o nosso maior pecado é o egoísmo. Seja esse social, cultural ou não. O ser humano não quer, muitas vezes, abrir mão de suas razões pessoais e acaba por repetir os sons (ecos) da angústia, da divisão, da mágoa, da humilhação, do ódio, da guerra, da vaidade, do descaso e tantas outras mazelas das suas relações…. Terminará a sua humanidade menos humana, mais triste e petrificada, lembrada apenas pela repetição dos seus sons.

Já o sábio encontrará algo a aprender no outro e não algo a repetir no outro. Você pode se perguntar então: Em que momento eu sou “Eco”, e em que momento eu sou Sábio? Ah, esse coração de pedra…

“Dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro em vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.” (Ezequiel 36.26-27).

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