Muros Diabólicos, Vidas Simbólicas…

muralhachina

Afirma-se que a única construção feita pelo homem, possível de ser vista do espaço é um “muro”. Isso mesmo, um muro. Embora isso não se confirme, parece que a milenar Grande Muralha da China, com seus quase 7000 quilômetros, é o um grande símbolo do valor que a humanidade forjou para seus muros. Lembro-me das palavras do cientista Isaak Newton: “Construímos muitos muros e poucas pontes”…

De fato, os muros têm atravessado a história da humanidade com a responsabilidade de conter, guardar, separar, limitar, isolar, dividir, excluir… O muro é o objeto símbolo da divisão.

Quando falamos em símbolo temos que compreender qual é o seu papel. O símbolo, na etimologia da palavra grega símbolos (Sim – unir; Bolos – partes), é aquilo que une, agrega. O seu antônimo é diábolos (Dia – separar; Bolos – partes), é aquilo que desagrega, divide, e separa.

Os sinais de união e virtude são símbolos, pois o símbolo é aquilo que une duas realidades diferentes. É aquilo que faz memória da existência e do amor nas relações.

Tudo que é passível de questionamento, de análise, de reflexão, representa, ou não, um sinal da união. Se o símbolo representa a união de duas realidades, o contrário se dá com o diábolo. Tudo aquilo que desagrega, que domina, que separa, que divide, que exclui, que oprime e reprime é diabólico, qualquer que seja a lei, a instituição, o cargo, o indivíduo, ou lugar onde se achem inseridos sociologicamente. Assim, podemos afirmar que o papel do Muro na sua essência é muito mais diabólico do que simbólico…

Quem não se lembra do Muro de Berlim?

Na manhã do dia 13 de agosto de 1961, a população de Berlim, próxima à linha que separava a cidade em duas partes, foi despertada por barulhos estranhos e exagerados. Dava-se o erguimento de um longo muro, traçado bizarro da guerra fria, que grosseiramente separou a zona soviética da então zona da aliança ocidental, provocando separações, dissoluções de famílias, exclusões, além de muitas mortes. Talvez, o muro mais vergonhoso de nossos tempos.

Mas em 09 de novembro de 1989, de Diabólico, o divisor passa a ser Simbólico, quando aconteceu sua “queda”. Foi o ato inicial emblemático da reunificação das duas Alemanhas.

 

“Os muros representam as muralhas sociais e pessoais que provamos diariamente. Os muros invisíveis não são menos diabólicos que os físicos. A ‘Apartheid’ foi um exemplo disso”.

 

No entanto, continuamos assistindo polêmicas sobre novos e famosos muros. O uso do obstáculo físico para separar dois universos distintos pode ter um viés ideológico, econômico, afetivo, militar e até mesmo envolver uma componente religiosa, como é o caso do muro construído por Israel, a nação dos judeus, para isolar os palestinos, seguidores do islamismo.

O “Muro de Israel” tem sido o laurel da falta de capacidade de diálogo, entendimento e da tolerância entre os seres humanos. Algo extremamente diabólico. De fato, não se aprendeu nada com o “diábolos berlinense”…

Também assistimos a controvérsia da construção de uma barreira na fronteira entre México e Estados Unidos, com o objetivo de conter o avanço imigratório ilegal nos EUA, vindo da fronteira com o México. A construção da barreira foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente George W. Bush.

Lembrei-me também, de que anos atrás, testemunhamos um anúncio do governo do Rio de Janeiro querendo construir um muro para cercar as favelas da Rocinha, do Vidigal e do Parque da Cidade. Diábolos!

Os muros representam as muralhas sociais e pessoais que provamos diariamente. Os muros invisíveis não são menos diabólicos que os físicos. A “Apartheid” foi um exemplo disso.

De fato, por vezes em nossas vidas pessoais e sociais temos sido mais diabólicos que simbólicos… Famílias em crises de relacionamento, divisões sumárias, filhos distantes dos pais, pais separados dos filhos, comunidades ou grupos vítimas de separações excludentes, e tantos outros fatos que nos tornam agentes da divisão.

Uma convicção eu tenho: O Sagrado abomina a divisão insana. Nada é mais belo e mais divino do que a união do ser humano, carnal ou não. Fomos criados para estarmos juntos e não para o isolamento. Fomos criados para sermos simbólicos!

No momento em que o individualismo e a competitividade de hoje nos impelem a sermos diabólicos, surge a certeza de que a nossa vocação é a de sermos engenheiros do Amor e da Paz. Construtores de pontes; Facilitadores da união…

Que o Criador das pontes nos proteja, e nos preserve de toda divisão.

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