Morrendo, com ou sem medo…

É fato. Estamos morrendo a cada dia, e não vivendo. O ser humano tem tantas perguntas a respeito do seu “fim” que evita declarar que está “morrendo”, e, em vez disso sempre afirma estar “vivendo”… Por exemplo: “Eu vivo no Rio Grande do Sul… Eu vivo pensando no futuro… Estou vivendo em uma nova cidade… Estou vivendo para o trabalho…”.

Na realidade poderíamos afirmar diferente: “Morro ali, no bairro Benfica… Morro naquela casa vermelha da esquina… Eu morro pensando em sucesso… Estou morrendo em um novo tempo…”.

Claro! Existe uma verdadeira luta pela longevidade que se alinha a esse medo da finitude. Recentemente, numa matéria jornalística inglesa questionou o seguinte: Todos os anos, aumenta o número de pessoas idosas, tanto nos países desenvolvidos como nas nações em desenvolvimento, graças às descobertas da medicina moderna para atrasar as fronteiras da morte. Mas a longevidade é necessariamente uma coisa boa?

Em parte dos EUA, por exemplo, a forma física é levada ao extremo. Há lojas abarrotadas de comprimidos e fórmulas que visam prolongar a vida. Programas de treinamento funcional e tantas sessões de ioga em parques públicos, que autoridades americanas já pensam em impor um limite no uso dos espaços públicos.

O cineasta Ed Saxon, que produziu o filme “Nação do Fast Food”, afirmou em 2006: ”Na Califórnia, você vê pessoas se exercitando às 05h15min, e isso ou faz bem a elas ou faz parte de uma psicose neurótica séria, ligada à infelicidade pelo fato de estarem ficando mais velhas…”. Além da obsessão em torno da forma física, existem os conselhos incessantes em torno do que se deve comer para permanecer jovem. Pode ser desconcertante, mas o objetivo é claro: A “morte” tem que ser adiada o máximo possível.

Contudo, preferimos morrer felizes ou queremos ter uma longa vida, mesmo que com dor e sem felicidade? Nos EUA se assume como fato que a longevidade é algo bom, afirma Susan Jacoby, autora do livro Never Say Die (Nunca Diga Morrer, em tradução literal). Susan diz que “se você for olhar com mais atenção para essas pessoas que te dizem que você pode ser uma pessoa saudável aos 120 anos, existe alguem vendendo alguma coisa, e estamos acreditando nesse mito, e que estaremos atualmente saudáveis do que nunca aos 77 anos, assim também aos 87 ou aos 97…

Mas a verdade é que, graças a alguns avanços da medicina moderna que mantém pessoas vivas, será preciso refletir mais sobre como cuidar dessas pessoas na saúde da alma também… ”.

”Na Califórnia, você vê pessoas se exercitando às 05h15min, e isso ou faz bem a elas ou faz parte de uma psicose neurótica séria, ligada à infelicidade pelo fato de estarem ficando mais velhas…”.

Diante desse fato “vivido”, ou melhor, “morrido”, gostaria de deixar uma reflexão nas palavras de um amigo meu de leitura: “Ora, dizem as Escrituras Sagradas: ‘Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer’. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A ‘reverência pela vida’ exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a ‘morienterapia’, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da ‘morienterapia’ seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs… Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a ‘Pietà’ de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo…”.

Foi quando meu pai, que é médico, após ler esse texto cruzou comigo de relance no corredor e afirmou sorrindo: “Descobri uma coisa: Deus é morte!

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