Não é Religião

*Fábio Vasconcelos

Neste século XXI, os neurocientistas anunciaram um novo quociente da mente humana, responsável pelo sentido de existência e valor da vida, o Quociente Espiritual – “QS” – ou comumente chamada de Inteligência Espiritual, e, através do desenvolvimento dessa inteligência, afirmam o desenvolvimento de a mesma transformar o sentido e valores do ser humano, contribuindo para melhorar o mundo, uma vez que se passa a enxergar as coisas dentro de um contexto mais amplo, de maior sentido e valor.

As pessoas, as organizações contemporâneas, os líderes e colaboradores, que buscam, cada vez mais, partilhar de estratégias de gestão, dão os primeiros passos com o propósito de entenderem e incorporarem o QS como forma de aperfeiçoar o seu sistema de Gestão e Liderança, tornando-o mais unificado, pleno e humanizado, superando, assim, a fragmentação imposta pelo paradigma cartesiano-newtoniano da modernidade.

Alinhado com o planejamento estratégico organizacional, o desenvolvimento pessoal torna real a possibilidade de planejar e programar as práticas pessoais, de forma a orientar cada pessoa quanto ao seu propósito de vida, sua projeção de vida futura e suas metas, sendo que estas devem ser atingidas para que se alcance um futuro almejado e possível. Enfim, orientar o indivíduo como um ser integral, com suas preocupações individuais, familiares, empresariais, espirituais, profissionais e sociais.

Apresentamos dentro de um modelo de desenvolvimento pessoal e da prática da liderança, um método desenvolvimento da inteligência espiritual, estimulando, em primeiro lugar, a uma maior compreensão de si mesmo, dos outros e do sentido da sua existência, promovido por uma transformação interior.

Considera-se a prática espiritual não ser, necessariamente, a prática de uma religião em particular, mas de o Homem estar em contato com a busca do transcendente e do olhar interior, na relação com um todo, mais profundo, mais rico, mais unificado, que o coloca em uma nova perspectiva nas relações e nos desejos humanos. Dentro das referências pesquisadas, encontrou-se diferentes categorias de profissionais debruçando-se sobre o tema da Inteligência Espiritual, de forma que, todo esse interesse, segundo as pesquisas, indica que se está diante de uma nova visão de desenvolvimento pessoal.

Os neurocientistas conseguem provar, através de experimentos, que o quociente espiritual não fragmenta, ao contrário, integra, unifica os processos mentais, ratificando que pessoas saudáveis, capazes e eficientes são menos ofensivas a si mesmas, ao seu semelhante e ao planeta. Assim, um método de desenvolvimento da Espiritualidade, ou melhor dizendo dessa Inteligência, pode servir de bússola para orientar o exercício da praticada liderança, implicando na experiência pessoal de que há “alguma coisa além”, o “algo mais”, que confere sentido e valor à situação em que a humanidade se encontra neste século.

 

 

Planejamento e Desenvolvimento Pessoal

 

Segundo Costa (2005), o Planejamento Pessoal é um método de gerenciamento de vida, o qual envolve mudanças de hábitos e atitudes, possibilitando maior organização pessoal, excelência do uso do tempo e dos recursos pessoais, assim como o desenvolvimento de habilidades pessoais e eliminação de hábitos negativos.

Da mesma forma que uma organização precisa de planejamento, qualquer pessoa também pode e precisa planejar sua vida. O planejamento pessoal ajuda a oferecer uma direção à vida do indivíduo, pois dá sustentação a qualquer tomada de decisão presente e avalia situações futuras desejadas. Contudo, esse mesmo sujeito, frente à clara necessidade de organizar sua vida, diante da exigência do mundo atual, começa a ficar preocupado em gerenciar sua vida, sua própria carreira, seu tempo, seu lazer, suas relações familiares, suas finanças, em buscar qualificações, em desenvolver suas competências, não só gerenciais, mas, também, emocionais e espirituais.

Um Planejamento Pessoal busca orientar, cada pessoa, quanto ao seu propósito de vida, sua projeção de vida no futuro e as metas que devam ser atingidas para alcançar esse futuro desejado. Enfim, tenta orientar o sujeito como um ser integral, com suas preocupações individuais, familiares, empresariais, profissionais e sociais. O Planejamento Pessoal é uma ferramenta para a auto-realização e para o “sucesso” pessoal, incluindo a motivação, o equilíbrio e harmonia entre a vida pessoal e profissional, como propõe Pires (2006).

Levando-se em consideração o desenvolvimento pessoal, como critério de abordagem, que poucos modelos de liderança propõem um desenvolvimento da prática espiritual, e a possibilidade de desenvolver a Inteligência Espiritual (QS) como elemento gerador dessa prática e como consequência gerar Capital Espiritual na Liderança e Organizações

 

 

A Prática Espiritual e a Inteligência Espiritual

Religião x Espiritualidade

 

De acordo com o Modelo de Estrada (Augustin, 2008), a Prática Religiosa/Espiritual permite à pessoa melhorar seus projetos religiosos e espirituais e promover sua evolução espiritual. Sendo assim, é necessário ressaltar que existe uma importante distinção a ser feita entre religião e espiritualidade. A religião está relacionada aos ensinamentos ou dogmas religiosos, doutrinas, práticas litúrgicas comuns, enquanto a espiritualidade relaciona-se com qualidades do espírito humano (tais como amor e compaixão, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, contemplação, noção de responsabilidade e noção de harmonia), que promovem felicidade, tanto para a própria pessoa quanto para os outros.

Religião é um termo que cada praticante escolhe para associar determinados tipos de fenômenos. Desta forma, religião pode ser vista ou interpretada sob diferentes enfoques. Para alguns, religião pode ser uma questão social; para outros, religião pode ser o espírito de devoção a Deus, sendo que cada uma dessas percepções cria diferentes conjuntos e categorias de dados, de acordo com Paden (2001).

Sob esse enfoque, e considerando-se que a experiência religiosa, da pessoa, resulta de sua espiritualidade, torna-se fundamental abordar alguns aspectos referentes a essas duas terminologias.

A palavra religião provém do latim religio e, segundo Paden (2001), nos tempos romanos, tinha um significado ligado à observância do sagrado ou à piedade. Segundo o Dicionário Michaelis, religião, do latim religione, é o serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considere mandamento divino. Um sentimento consciente de dependência, ou submissão, que ligue a criatura humana ao Criador. Outro conceito, apresentado por William James, refere-se a religião como “os sentimentos, atos e experiências de homens individuais em sua solidão, na medida em que se julgam em relação com o que consideram o divino”.

A religião interessa-se pela relação do homem com o sagrado, caracterizando-se como garantia de moralidade dogmática, como uma fonte de ordem pública e paz individual interior, enobrecedora e civilizadora da humanidade. Não tendo objetivo ou finalidade em si mesma, é uma atitude com relação ao sagrado, o qual tem como característica a capacidade de dar à consciência humana uma obrigação moral e ética, apresentando um imperativo ético ao crente, conforme afirma Ó’dea (1969),

Nesse sentido, o homem busca o sagrado através de suas experiências individuais, éticas e morais, que estão ligadas a uma prática religiosa pelo vínculo da religiosidade, a qual engloba suas crenças, hábitos, tradições e ritos. Entretanto, existem aqueles que não aderem a uma prática religiosa, mas admitem a presença de uma espiritualidade individual. No caso dos ateístas, por exemplo, que têm como base a dúvida da existência de deuses, ou a negação deles, pode-se afirmar que, mesmo não tendo uma prática religiosa, são detentores de uma espiritualidade pessoal, inerente aos seres humanos, que está presente no desenvolvimento da ética e dos valores pessoais.

A interpretação, que é dada ao que se vê, é fruto do tipo de espiritualidade que se cultiva; a espiritualidade orienta o modo de “ler” a mensagem que cada experiência de vida pode comunicar. A espiritualidade leva o indivíduo além do que detecta com os sentidos (visão, tato, audição, olfato e paladar). A espiritualidade faz o ser humano entender que há um transcendente a sua volta.

Espiritualidade e religião não são sinônimos. Uma prática espiritual não significa, necessariamente, a prática em qualquer religião. Por isso, pode-se ser ateu, ou agnóstico, e praticar uma profunda espiritualidade. Assim, uma pessoa que nutra espiritualidade não é a que induz as pessoas a adotarem determinadas crenças e práticas religiosas. Essa indução pode ser, a rigor, uma “afronta” à genuína espiritualidade.

Atualmente, há o desejo de reunir elementos da espiritualidade de diferentes religiões e criar uma “espiritualidade eclética”, desvinculada de suas origens. Na mesma linha, caminha uma relevante quantidade de literatura de auto-ajuda (na maioria de caráter individualista e imediatista). Para tanto, o diálogo inter-religioso e o macro-ecumenismo criam uma linguagem comum, com a qual as diferentes tradições manifestam sua espiritualidade, dialogam e aprendem umas com outras. Reconhece-se que as espiritualidades das diferentes religiões compartilham de experiências comuns da humanidade, respeitadas as diferenças.

Quais seriam os traços comuns das espiritualidades? Considerando-se a sabedoria das grandes religiões da humanidade, e a sensibilidade do ser humano, hoje, Murad (2007) cita que elas se caracterizam, especialmente por:

 

“•            Assumir uma postura de vida de “ser do Bem”, em todos os relacionamentos;

  • Buscar um sentido integrador da existência pessoal, coletiva e cósmica;
  • Aprender do caminho espiritual das varias religiões;
  • Superar os excessos das religiões históricas;
  • Promover a cultura da paz, tolerância e o respeito às diversidades;
  • Cultivar o cuidado com o ecossistema, com vistas à sustentabilidade;
  • Aderir a um estilo de vida saudável;
  • Fazer um caminho de evolução espiritual, pela integração das pulsões, autoconhecimento, cultivo da sabedoria e iluminação”.

 

Embora a religião tenha a pretensão de ser a “única” expressão da fé, da espiritualidade e da religiosidade, há relação de continuidade e descontinuidade entre elas. Na sociedade contemporânea, algumas pessoas afirmam ter fé, ma religião, segundo Murad (2007).

Na Ciência da Religião, alguns autores distinguem fé, religião e religiosidade:

 

– adesão a Deus e a seu projeto, comporta espiritualidade – jeito de relacionar-se com o Absoluto – e uma ética determinada.

Religiosidade – é a manifestação tangível da fé, realizada por pessoa ou grupo, em um contexto cultural preciso. A tendência de o ser humano buscar o sagrado e estabelecer relação com ele.

Religião – é uma configuração histórica da fé e da religiosidade, em forma de conhecimentos, ritos e ética. A religião tematiza a busca e o encontro do ser humano com o sagrado, enquanto mistério, que lhe revela o sentido da própria existência.

 

“Se a espiritualidade é importante para a vida das pessoas e das organizações, por que, efetivamente, ela ocupa um lugar tão pequeno no planejamento estratégico? Por que os próprios gestores, à medida que se engastam no mundo administrativo e dos negócios, nas grandes instituições, tornam-se, não poucas vezes auto-suficientes (e arrogantes) e menos espiritualizados?” (MURAD. 2007).

 

Por essa afirmação, Inteligência Espiritual, e seu desenvolvimento, é um componente fundamental para desenvolvimento de uma prática religiosa/espiritual. Na sua peregrinação humana, a pessoa sente que sua busca torna-a capaz de amar e agir com uma ética virtuosa. Por isso, a necessidade da oração, da meditação, de momentos de relação com o sagrado, com o seu semelhante, o meio ambiente e consigo mesmo. Sob a ótica da maturidade humana e da caridade, o desenvolvimento espiritual e humano são convergentes e interdependentes.

Mais especificamente, a prática espiritual diz respeito ao fato das pessoas serem indivíduos com necessidades espirituais – desejo de serem únicos, de estarem em união com algo superior a si próprios, de serem úteis, de compreenderem e serem compreendidos, desejarem experimentar um sentido de propósito de vida e de significado na vida e pretenderem experimentar uma conexão com outras pessoas e com a sua comunidade de trabalho.

Diante do desejo de ser feliz e fugir do sofrimento, o ser humano busca o sentido de sua existência. O indivíduo nem sempre almeja fazer algo de grandioso em sua existência, porém, se esforça para compreender o significância da vida. Qual o significado da vida? Qual a missão aqui na terra?

O Dalai-Lama (2000) acrescenta que o objetivo da vida é perseguir a felicidade e, por meio de uma disciplina interior, sofrer uma transformação em sua atitude, em seu modo de encarar e abordar a vida. Dessa forma, a disciplina interior é a base de uma vida espiritual, envolvendo o combate aos estados mentais negativos (raiva, ódio e ganância), cultivando estados mentais positivos (benevolência, compaixão e tolerância), pois uma vida feliz é construída sobre um alicerce propiciado por um estado mental estável e tranqüilo. Sendo assim, conforme Augustin (2008), o planejamento espiritual procura instigar a pessoa a desenvolver e evoluir como ser humano.

 

Uma Introdução a Inteligência Espiritual (QS)

 

Inteligência Espiritual, também chamada de Quociente Espiritual, traz, ao homem contemporâneo, a possibilidade da busca de sua plenitude, procurando encontrar sentido e valor para sua vida, dentro de um contexto mais amplo.

As últimas pesquisas na área da ciência, mais especificamente na neurociência, comprovam a existência de uma capacidade interna, inata, do cérebro e da mente humana, que tem como função propor habilitar a descobrir e a usar o sentido na solução de problemas, considerando o indivíduo contemporâneo ter como dificuldade o sentido ou a falta de um propósito mais profundo existencial, o que leva a uma crise básica neste início de século XXI.

Duas descobertas antecederam a revelação do QS. O primeiro ocorreu no início do século XX, com a descoberta do QI (Quociente de Inteligência), a inteligência intelectual ou racional, lógica. Os psicólogos desenvolveram testes para medí-la. Esses testes poderiam medir, em graus, a inteligência, e quanto mais alto fosse o QI, supostamente, mais habilidades e mais talentos teria o indivíduo. Logo, esse seria mais inteligente, dizia a teoria.

O segundo momento aconteceu em meados da década de ‘90. Daniel Goleman, em 1995, juntamente com neurocientistas e psicólogos, popularizou pesquisas sobre um modelo de inteligência ligada às emoções, Inteligência Emocional, o QE (Quociente Emocional), que dá percepção de sentimentos do indivíduo e dos outros, assim como dá empatia, compaixão, motivação e capacidade de reagir apropriadamente à dor e ao prazer.

No final do século XX surge, através de um conjunto de dados científicos, e configura-se como descoberta de um novo modelo psicológico do Eu e da personalidade humana, o QS. Como afirma Zohar & Marshal (2002), os modelos anteriores tiveram duas “camadas”: a externa, ou a personalidade consciente, racional, e a interna, formada de associações, motivações, na maior parte inscientes, neuroses, e assim por diante. O terceiro processo induz a uma terceira camada, um ponto central.

O QS é a inteligência em que se aborda e soluciona problemas de sentido e valor. Zohar & Marshal (2002, p. 24) esclarecem esse campo quando dizem:

 

“O QS é a inteligência com a qual reconhecemos não só valores existentes, mas com a qual, criativamente descobrimos novos valores. Não evolui a partir de valores existentes. Para começar, cria, em vez disso, a possibilidade de produzir valores. Através da história da humanidade, todas as culturas tiveram e têm algum conjunto de valores, embora diferissem de uma cultura para outra. O QS, portanto, é anterior a todos os valores específicos e a qualquer cultura determinada. Torna possível (e talvez até necessário) o religioso, mas independe de religião”.

 

Gardner (1993), em seu livro Multiple Intelligences, argumenta haver, pelo menos, sete tipos de inteligência: a lingüística, a musical, a lógico-matemática, a espacial, a cinestésica, a interpessoal e a intrapessoal, contudo, argumenta que nossas inteligências, possivelmente infinitas, podem estar ligadas a um dos três sistemas neurais do cérebro, e que todos os tipos de inteligência, por ele descritas, são, na verdade, variações do QI, QE e QS, e de suas configurações neurais associadas.

O QS permite, a pessoa, ser criativa, mudar regras, alterar situações. Permite trabalhar com limites, participar do “jogo” infinito. O QS fornece maior capacidade de escolha, maior senso moral, capacidade de temperar normas rígidas com compreensão e compaixão, e igual capacidade de saber quando a compaixão e a compreensão chegaram a seus limites. Pode-se usar o QS para lutar com questões acerca do bem e do mal e imaginar possibilidades irrealizadas (sonhar, aspirar, superar). É esse poder transformador que diferencia o QS do QE e do QI, afirma Zohar & Marshal (2002, p. 19).

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